Um Conto Original de Marvin Zenit: QUEDAS DE ÁGUA.
O mar sempre retorna...
Nas
eras mais antigas, quando o a Lara (sol)
raiava acima dos capacetes dos Ancestrais guerreiros, havia um reino chamado Morgen Turm na ponta da cachoeira do Mar
Estrelado, duas pontes ligadas por uma cidade principal cheia de torres altas,
algumas brancas, outras cinzas, arranhando os céus, as duas pontes iam de um
lado a outro do imenso rio, do lado norte o rio desembocava no mar, já no sul
havia o milagre de uma cachoeira; a fortaleza era um ponto referencial
grandioso para a partida de navios rumo aos mares do Norte, o castelo era
conhecido como a Torre da Manhã, por ser o primeiro a ver o sol subir naquela
região. O herói das águas, Alrium, construiu Morgen Turm junto a sua tripulação afim de fazer uma passagem
viável para o outro lado do rio, além de ser um bom ponto para se vislumbrar as
mais belas periferias de Arktrhain e as montanhas nebulosas.
Uma porta de madeira com detalhes de metal foi empurrada
lentamente por Alrium, o aconchegante frio da noite o recebeu com louvor. Ele observou
os céus de Arktrhain com paciência, via os raios pálidos da lua dançando nas
azuladas e esplendorosas auroras distantes, se lembrou de suas odisseias e das
maiores batalhas navais já vistas em Trajectory desde a chegada dos seis
Paladinos da Aurora. O vento frio da noite acariciava seu pescoço, como se a
Divina estrela sussurrasse canções românticas e messiânicas em celebração do
tão sonhado retorno da deusa Tanifra para livrar-lhes do terror imposto pelos
dragões Negros e os três Cavaleiros ancestrais de Orion, os quais um dia foram
os irmãos mais queridos de Alrium...
O herói ouvia
o distante som das majestosas flautas cantarolando as mais belas músicas
aprendidas por uma cultura trazida de Weisen, o sábio, um dos 3 grandes
Paladinos da aurora. A magia da partitura do instrumento, mesmo distante,
trazia uma tenra harmonia ao Animarum de Alrium, era como se o som ecoasse
entre o seu coração e seu cristal de centelha, o qual ficava no canto direito
do peito, emanando e fluindo a aura brilhosa, deslocadora de tanta esperança.
Desceu
lentamente o olhar até ver a sua frente o grande jardim do pátio onde estavam
as flores das mais variadas cores, uma mais fantástica que a outra, emanando a
beleza perante a escuridão da noite. O pátio se configurava em pistas de
granito serpenteando em volta dos campos com flores; no centro, uma pista
coberta por um longo tapete azulado brilhante, tudo à volta possuía uma leve
coloração azulada natural da noite. Alrium começou a caminhar pelo tapete, com
passos confiantes, olhando o céu e contanto estrelas, as suas tão amadas
estrelas. Sua mente procurava conforto, um momento de paz.
O céu em
Trajectory era diferente: a limpidez da imensidão azulada à noite permitia uma
vista esplendorosa das estrelas, e além das estrelas também se podia ver as
distantes e coloridas poeiras estelares se mesclando na distância do olhar, auroras
boreais dançavam vagarosamente no horizonte, eram vistas mesmo a quilômetros de
distância de Artikhos (o continente
ártico de Trajectory), linhas e mais linhas de estrelas eram vistas com
facilidade, cruzando o horizonte da galáxia ao redor de Trajectory, Alrium
gostava de observar as de cores mais distintas, algumas vermelhas, outras
alaranjadas, mas sempre todas dançando juntas à canção interminável do Cosmo.
Haviam poucas nuvens próximas à lua.
O paladino
lembrou-se dos seus dias no Reino do Sol, exercitando seu rigoroso treinamento
com Tanifra e seus irmãos: Barenkraft e Weisen. Alrium adorava sentir o cheiro
das plantas ao seu redor, cobrindo os dois lados do corredor de pedra por onde
andava, contentou-se com o doce som do bater de asas das borboletas indo de um
campo de flores a outro. Até que subiu três baixos e longos degraus dando em
uma varanda em forma de arco de pedra polida, com um largo batente o qual
circundava a varanda do pátio formando uma abóbada de um lado a outro, Alrium
recostou-se por um instante no batente, baixou a visão e viu uma cachoeira
colossal com mais de 500 metros de queda, era poderosa e majestosa a velocidade
da descida cordial constante da água, ele reanimou-se com o alto e harmônico
som de do mar escorrendo e caindo, já não se ouvia mais as flautas àquela
distância.
No pé da
cachoeira havia uma pequena cidade em meio a montes de pedra e montanhas subindo
à distância, uma cidade exótica e humilde, com uma arquitetura moldada na pedra
laranjada, como a pedras usadas em estátuas antigas, as últimas tochas
queimavam a distância, estrategicamente posicionadas, mostrando a cidade ainda acesa
e alerta contra qualquer avanço dos Cavaleiros de Orion, os quais não se
fizeram muito presentes ultimamente, tendo em vista o retorno de Alrium e sua
gigantesca frota à Torre da Manhã. No lado oeste da cidade, por onde caiam as
águas constantes da cachoeira, havia um imenso lago fazendo um aro em volta da
cidade, servindo de uma grande fonte de peixes para a população, A essa hora
não havia mais nenhum paciente pescador, logo voltou a contemplar as nuvens
cujo movimento era a canção da lua.
Ouviu
a vibração do vento e fez um movimento com o braço direito para trás, por cima
da cabeça, como se sacasse uma arma invisível de uma bainha inexistente, e
quando puxou o braço de volta para frente, sentiu um calor reconfortante e
poderoso em todo o seu corpo, viu faíscas douradas emanando, uma aura dourada o
envolvia rapidamente, tomando um raio de luz ofuscante, e em questão de
segundos Alrium se viu coberto por uma monumental armadura prateada, reluzente
e firme como o aço primordial das primeiras eras de Trajectory. E à sua mão,
uma longa e rústica lança.
Sua cabeça foi
coberta por um magnífico capacete medieval, com uma viseira em forma de linha na
horizontal, na região da orelha se projetava uma pena de fênix vermelha
apontada para trás; seus ombros foram revestidos por uma carapaça de aço grande
o suficiente para escapar um pouco dos braços, e antes da ombreira, na região
do trapézio, uma liga de aço se esticando para cima, protegendo até a altura do
seu pescoço; seus braços estavam envoltos em placas roliças perfeitamente
encaixadas nos seus músculos de guerreiro, seu cotovelo era protegido por uma
placa curvada com alguns ornamentos, as mãos estavam enroupadas com Aço, cheios
de pequenas brechas para dobradura dos dedos, no torso uma forte couraça
sustentava o poder contido no seu capacete, o peitoral possuía desenhos
segmentados os quais dificultariam e entrada de qualquer arma perfurante, era
maciça para desamparar ataques de esmagamento; sua cintura era coberta por uma
espécie de saia azulada a qual tinha uma grande camada de cota de malha
revestindo por de baixo; suas joelheiras pontudas eram como martelos protetores
e seus pés eram resguardados por segmentos prateados, Alrium não sentia peso
algum ou sequer desconforto, embora estivesse envolto à uma couraça tão
grandiosa.
O Warlord[1]
do Domador de Mares.
O guerreiro
arqueou o braço para cima, apontando a linda lança para o alto, a arma tinha
seu longo cabo esculpido em antigas rochas, com desenhos cuneiformes representando
a odisseia dos 6 Paladinos em sua volta para casa, a ponta de aço continha uma
abertura no centro. Na parte chata, em forma de triângulo, a lâmina era moldada
em um brilhoso aço dourado tão radiante que mesmo na penumbra da noite, a lança
ainda podia ser vista e sentida de longe, na base da ponta havia uma badana
azul amarrada, com duas pontas esvoaçando aos ventos frios, transportando a
beleza do movimento constante do guardião protetor. Alrium começou a contar as
estrelas com sua lança, um exercício aprendido no Reino do Sol, onde as
estrelas mais brilham, buscava os significados com cuidado, tentando ler as
mensagens do céu.
Quando de
repente, ouviu uma voz ecoando pelo gigantesco pátio até seus ouvidos cobertos
pelo belo elmo prateado, fazendo as flores dançarem em seguida, de tão sapiente
e graciosa que a voz era. Uma voz feminina e singela cuja sinfonia acariciava
mesmo o coração dos mais corajosos ursos ancestrais de Arktrhain, Alrium baixou
a lança num movimento habilidoso e se voltou para os viveiros, discerniu à
distância uma figura pequena e pura de uma criança a qual conhecia melhor do
que conhecia a sua própria lança, sua filha: Eárine, a curandeira das flores.
- Papai!
Papai! – Gritava entusiasmada para Alrium, com as mãos ao redor da boca em
forma de cone.
Alrium foi em
direção à criança, olhando a imensidão da torre de pedra central do castelo, postada
atrás de Eárine. De repente sua armadura se desfez em uma poeira dourada
reluzente composta por milhões de minúsculas partículas viajando junto com as pétalas
das flores dos viveiros, a lança também se desmaterializou e foi levada pelo
vento. Ele viu sua pequena princesa de perto, a menina usava um vestido simples
e violeta com nuances azulados, tinha a face da pureza, tão macio era o rosto
que Alrium tocou ao se aproximar, enquanto alisava os longos e soltos cabelos
refletindo uma cor diferente a cada vez que a garota se mexia, era como se o
castanho-claro tivesse uma resplandecência tamanha que mudava de cor diante de
qualquer luz forte, nesse caso as das colorações das flores.
- Olá, minha
querida. – Respondeu Alrium, com sua voz sábia e tônica, a qual trazia harmonia
mesmo aos momentos de mais tristeza.
- Olha!
Consegui achar uma plantinha especial, e tirei uma pétala só para o senhor,
olha como ela é bonita! – Disse Eárine, enquanto abria uma pequena caixa de
madeira polida em suas mãos, mostrando uma sensível planta, com uma pétala branca
brilhosa, emanando um brilho constante. Alrium ficou orgulhoso:
- Maravilhoso,
minha Eárine, e onde encontrou tanta beleza? – Indagou, com orgulho.
- Perto da
cidade da cachoeira, lá embaixo! – Disse ela, apontando para a varanda do outro
lado do pátio, entusiasmada e com o rosto enrubescido.
Alrium se
abaixou próximo à menina e disse: - Não sabe o quanto Tanifra ficaria orgulhosa
com sua descoberta, minha amada Curandeira de flores. – Ele pegou a pétala e
enxergou mais de perto, vislumbrando esperança. – E como resolveu chamá-la?
- Vou chamar
essa de Seishin[2]!
Nunca vi uma pétala tão bonita, papai! – Respondeu Eárine, com sua graciosa e
cordial voz, abrindo um largo sorriso.
- Um lindo
nome, querida, representa bem o que você e essa flor têm em comum. – Alrium
olhou-a nos olhos e sentiu a felicidade vinda daqueles profundos olhos azuis e
sábios. Eárine andou com a caixa de madeira às mãos, puxando Alrium pela mão em
direção à varanda, o pai devolveu à filha a pétala e ela guardou com cuidado na
caixa enquanto caminhava, fazendo seu pequeno vestido dançar em meio às outras
pétalas que voavam e vagalumes que a circundavam.
Chegando lá,
Eárine recostou-se com os braços no batente da varanda, tentando olhar para
baixo, Alrium a levantou nos braços e a pôs sentada no parapeito, segurando
firme a sua mão, não tinha medo, não com os poderes que possuía. Os cabelos da
garota agora refletiam a cor azulada das águas. Olhando a Curandeira de Flores com
serenidade, perguntou:
- Você não tem
medo de cair, minha querida filha?
- Não com o
senhor aqui, pai. – Respondeu Eárine, virando a cabeça para a esquerda,
deixando os cabelos esvoaçarem livremente com a força da brisa.
- E se eu não
estivesse? – Ele soltou a mão de Eárine.
- Eu tentaria
vencer o medo como o senhor me ensinou, do jeito que fez quando o senhor e os
meus tios mataram o Dragão em Zenroth! Você disse que o medo está só ali para
nos tornar mais fortes, e eu quero ser mais forte! Igual ao senhor! – Alrium
ficou impressionado ao perceber confiança da garota, ela nem se alterou ao ter
ficado livre da mão dele, sua bravura o honrava.
- Tão pequena,
mas com um coração tão valoroso, um dia tu saberás como controlar o medo que
tanto nos cercam, Curandeira de Flores.
O cabelo de
Eárine reluziu esverdeado.
- Acho que já
está na hora de voltar para a cama, minha pequena, mostre sua descoberta a sua
mãe, amanhã leve-me exatamente para onde encontrou esta flor, estou ansioso
para caminhar novamente com você. – Disse Alrium, sua voz ecoava num tom de
liderança e confiança robustos.
Eárine
virou-se para o lado contrário da cachoeira, e pulou do batente, sentindo um
pouco a queda, então Alrium pegou a caixa de madeira deixada no parapeito e
entregou a criança. Se abaixando mais uma vez, puxou a mão esquerda da garota,
que agora tinha seus cabelos tingidos por um brilho dourado, ele pôs a mão dela
na tampa da caixa.
- Sabe o que a
lembrança significa, minha pequena? – Indagou Alrium.
- Sei, mas não
consigo explicar! – Respondeu ela, sorrindo e inclinando a cabeça para o lado, apertando
os olhos em confusão.
- É a
capacidade de iluminar nosso futuro por meio de nosso passado guardando coisas
que nós amamos.
- Como assim?
– Eárine ficou ainda mais confusa, seus cabelos agora dançavam em meio às
borboletas esvoaçando ao redor do Jardim. Seu vestido violeta causava um
contraste com as cores das flores verdes e da torre cinzenta atrás de si.
- Um dia
entenderá melhor, e para isso, preciso que guarde essa caixinha, não importa o
que aconteça, vai se lembrar dessa noite, do frio e harmonia que tivemos aqui,
juntos, guarde-a para sempre. – Explicou o Domador de Mares, acariciando-a com
um sorriso forte.
De repente, as
flores que estavam esvoaçando para oeste, foram para leste, e os cabelos de
Eárine reluziram em azul escuro.
O lanceiro
começou a sentir uma pressão forte no Animarum cujo respirava, era como se
energias ancestrais e malévolas circundassem as flores em volta, tentando
estragar a sua coreografia natural da ventania, ele percebeu o chão vibrando
mais do que já estava com as quedas d’água, e antes de pensar em qualquer coisa
prévia, afastou Eárine do meio da varanda, vendo o tapete a sua frente.
- Eárine, preciso
que vá para a torre, volte para a cama, já está tarde.
A força
maléfica aumentava, Alrium se lembrou dos efeitos da escuridão, do que o escuro
projetou e trouxe ao mundo de Trajectory.
- Vá, agora,
por ali. – Disse ele apontando para o canto esquerdo do pátio, por trás das
flores.
- Mas papai,
as flores vão bri-- - antes de Eárine continuar, um som ecoou assobiando por
trás da torre Central, algo como um sopro mais forte e perseguidor, seguido de
um rumor fantasmagórico perturbando toda a paz do Jardim. Subitamente, o portão
de pedra e metal da entrada do pátio foi se abrindo vagarosamente, parando
repentinamente, revelando uma luz alaranjada dançante de tochas vindo de um
longo corredor.
- Algo se
aproxima. – Proferiu Alrium para si.
Alrium deu
dois passos à frente quando ouviu o som, Eárine segurou a caixa de madeira
polida firme em seus braços e correu a passos curtos e silenciosos por onde o
pai pediu, quando repentinamente teve um susto: Viu uma fumaça negra e espessa
saindo da porta entreaberta. Ela logo se lembrou das histórias que seu pai lhe
contou dos Guerreiros de Orion, sempre tramando nas trevas. Um baque retumbou e
a porta se abriu completamente, revelando a silhueta de uma figura assustadora de
armadura.
O som do vento
foi interrompido por um lamento sem voz constante, reverberando por todo o
castelo.
- Papai... –
Sussurrou a garota, parando atrás de um viveiro com plantas um pouco mais
altas, podendo cobrir-se. A pintura que tinha agora a sua frente era de um lado
seu pai andando com passos firmes cruzando o tapete, e do outro lado a porta
aberta, escancarada e cobrindo a visão de Eárine.
De repente ela
sentiu uma chuva leve acertar-lhe a cabeça, a luz de um relâmpago irrompeu no
horizonte a oeste de Annexes.
O Domador de
mares ia de encontro à porta metálica, sabendo do risco que assomava o Jardim,
um perigo que atravessou toda Morgen Turm
sem ser detectado nas trevas, Alrium reconheceu a figura alta e poderosa a
uma distância considerável, era Nircuth, o Portador da Ordem. Ao redor do
cavaleiro de Orion havia uma aura constante envermelhada que oscilava e dançava
emanando um poder flamejante de Animarum a muito corrompido e esquecido nos
confins das cavernas da eterna escuridão, onde os 3 irmãos de Alrium pereceram
na luta contra o último Dragão Negro. A negritude ignominiosa da armadura do
Cavaleiro era opaca e totalmente contrária à tonalidade da couraça de Alrium.
Antes do
feitiço proferido pelo Dragão Negro, o Warlord de Nircuth era uma armadura
segmentada com várias camadas de aço que cobriam a região ao redor do seu
pescoço, os seus ombros tinham a couraça a qual representava a proteção e
sabedoria dos mais experientes, a expressão trazida em seu capacete redondo naquela
época era de paz e esperança, de que num dia tão distante, eles encontrariam a
harmonia tão sonhada no reino do Sol. Mas agora, sua armadura era algo
peçonhento de se enxergar, o feitiço do Dragão fez com que crescessem elevações
pontudas nos segmentos do seu torso, fazendo com que fossem perigosos ao toque,
seus ombros também ganharam pontas nas hastes para fora, seus dedos cobertos
por placas de metal negras agora eram fortes e brutos, deixando de lado a fé
que se passava aos mais inexperientes na arte das armas. A viseira abobadada de
seu elmo foi composta por uma luz cor escarlate medonha, por cima de sua cabeça
seguia uma longuíssima pena também envermelhada, que um dia já fora verde.
Nircuth era conhecido por seus irmãos Orion
Knights como “Portador da Ordem” pelo fato de ele ter sido o primeiro a fazer
a expansão do reino de Orion, ele sozinho tomou cidades, reinos, escravizando e
aumentando a sua força, mas essa prosa é para outro momento.
Alrium
sentiu-se decepcionado ao ver novamente aquela figura medonha se escondendo nas
sombras, trespassando as luzes numa caminhada sem forma, sem corpo. Ele se pôs
em pose de duelo, apoiando bem as pernas uma à frente da outra, fez um
movimento curvo com o braço por cima da cabeça e assim o Warlord do Domador de
Mares surgiu novamente, se compondo em uma poeira dourada vinda de seu corpo ao
terminar o movimento, as plantas foram remexidas pelo impacto da invocação e
Alrium brilhou novamente em meio a elas. Entretanto, arqueou a lança para o
chão.
- Por que se
esconde nas trevas, criatura? – Indagou ele.
- Sem elas eu
perderia a ordem do destino de Orion, irmão... – Respondeu o cavaleiro negro,
sua voz era fantasmagórica e perversa, grossa e retumbante como os martelos da
escuridão.
- Meu irmão
Nircuth se perdeu nas cavernas há muito tempo atrás... – O lanceiro baixou a
cabeça numa pausa. - Mas ainda há chance de voltar para a luz da Aurora, se pudéss--
- Não seja
tolo, Alrium, o Dragão Negro me fez um favor me mostrando do que realmente sou
capaz, não vê quanto poder emana do lado escuro do Animarum? – Nircuth
intensificou a voz enquanto andava pelo tapete.
- Você está
enganado, a centelha negra está mexendo com sua consciência... Não se esqueça
do que aprendeu... As virtudes... Onde elas, ficaram? –Indagou Alrium
pausadamente. Nircuth soltou faíscas vermelhas de suas mãos e logo projetou um
pó vermelho esvoaçante, materializando um machado de cabo longo e prateado,
tento na ponta uma lâmina próxima a um martelo destruidor, uma arma virada para
cada lado.
As flores iam
ficando cada vez mais perturbadas a cada passo umbroso de Nircuth em direção ao
oponente, Eárine teve medo de ser vista.
- Não precisamos
resolver isso nas armas. – Continuou Alrium.
- Não se você,
domador de mares, ainda quiser se unir a nós, reconquistando este mundo em prol
da Ordem de Orion. – Rebateu Nircuth fazendo um gesto com a mão, emanando um
véu de energia negra em sua palma.
- Não consegue
perceber o que está fazendo? Escravizando pessoas perante o seu avanço a uma
Ordem imaginada por um mal a muito derrotado?
- O trabalho
de gerações de guerreiros irá resultar numa sociedade perfeita, longe da
dependência de sua deusa Tanifra, não há como nos derrotar, Alrium, esse mundo
será nosso. – Explicou Nircuth, com sua voz ainda mais grossa e fantasmagórica
do que antes.
- Podíamos ter
moldado um mundo muito melhor, juntos, amigo... – Alrium tocou a pena de fênix
ao lado de seu capacete.
Ao ouvir a
última palavra, Nircuth fez sua viseira vermelha brilhar em chamas e assim deu
um berro espectral, pulando em seguida a uma altura sobre humana, no meio do ar
ele arqueou seu machado da destruição para baixo e desceu com outro grito
abissal em direção a Alrium, eis que o herói deu um salto para trás e pousou
com a elegância de uma ave na varanda do pátio, o tapete azul ficou partido e o
chão trincado com o impacto.
Eárine viu as
gotículas de chuva serem jogadas para longe com o golpe.
- Sempre
acreditei na união de nossos poderes, Nircuth, mas parece que não nos resta
outra escolha. – Exclamou Alrium, decepcionado, mas ainda firme, arqueando a lança
a frente com as duas mãos.
Nircuth
ergueu-se e com a mão esquerda apontada para frente, juntou uma energia
vermelha de Animarum Negro e como na velocidade de um bater de
asas de borboleta, um raio vermelho brilhante da espessura de um pilar rochoso
partiu em direção a Alrium, cortando os pingos numa velocidade implacável. O
domador de mares rapidamente revelou seu poder primordial: Antes do raio o
atingir, ele fez um movimento com a lança em direção a cachoeira, concentrou
seus pensamentos e assim uma grande onda vinda da cachoeira em movimento se
formou acima dele, formando um escudo. Todos os sons pararam por instantes,
esperando aquele embate.
O momento do
impacto foi colossal e onírico, o raio foi de encontro à onda eclodindo num
flash vermelho tão mastodôntico que podia ser visto desde a cidade no pé da
cachoeira, até as gotas caídas da chuva se espalharam para longe por alguns
segundos novamente, como se a pancada tivesse repelido tudo entre os dois
cavaleiros. As borboletas perderam o controle do voo e os vagalumes piscaram
nervosamente.
-Desista
Alrium! Tanifra não está aqui para lhe fortalecer! – Vociferou Nircuth.
- Nunca! A luz
irá sempre permanecer. – Gritou Alrium, mantendo a lança firme concentrando
toda sua força no escudo de água.
O raio constante de Nircuth reluziu vermelho
na armadura prateada de Alrium, o vilão foi se aproximando enquanto atirava o
projétil com um braço, estava vencendo, as águas da cachoeira não estavam
suportando tamanho poder investido no mal.
Outro
relâmpago irrompeu no horizonte.
Alrium sentiu
a onda ceder e logo um vão de água foi jogado para longe da varanda, fazendo o
Lanceiro da Aurora se abaixar com um joelho atrás da perna dobrada, a lança
ainda em riste, ofegou por alguns instantes. Foi quando Nircuth fez outra
investida, dessa vez correndo, subindo os três degraus para a varanda com a
velocidade de um leopardo, jogando poças de água para longe. Alrium conseguiu
se levantar e correr para um duelo de curto alcance. O vilão desferiu um golpe
de cima para baixo, cortando a luz das auroras boreais, mas o domador de mares foi
rápido o suficiente para evadir com um rolamento para a esquerda. Sentindo o impacto
do machado no chão, ele aproveitou o movimento acumulado na evasão e fez um
corte horizontal com a lança, tentando aproveitar a brecha para um ataque
certeiro, Nircuth desviou a cabeça e com a braçadeira esquerda afastou a lâmina
do oponente. O lanceiro se afastou rapidamente, encontrando uma distância ideal.
As tiras de
pano amarradas na sua lança esvoaçavam com harmonia, representando a calma do
guerreiro durante o combate, mesmo na mais turbulenta chuva.
Eles se
encaravam, fúria contra paciência, virtude contra vício, vermelho contra a
azul, prata contra negro. Alrium lembrou-se da paciência a qual lhe fora
ensinado há muitos anos atrás, era um guerreiro nato, como nenhum outro, mas
Nircuth era implacável. Eles sentiam cada gota de chuva castigando suas
armaduras, porém não se atinavam a perder o foco.
Um corte da
arma de Nircuth cortou a luz das estrelas acima da cabeça de seu oponente, o
qual defendeu o ataque com o cabo da lança e tentou deslizá-lo, evadindo o
machado por um segundo, mas o contra-ataque falhou, o cavaleiro negro tirou o
machado do contato da lança a tempo e desferiu uma pancada com o martelo no
ombro esquerdo exposto de Alrium. O domador de mares sentiu a ombreira rachar e
seu Animarum estremecer com tamanha perícia dominada pelo inimigo, recuou ainda
mais.
Chegaram
próximo ao batente da varanda, com ferozes pancadas e investidas as quais
cortavam as gotas da chuva. Cada encontro de arma resultava em riscos enormes
de faíscas ora vermelhas, ora douradas, não era um simples embate de aço, mas
de Aura. Os panos amarrados ao redor da cintura dos cavaleiros se misturavam no
combate, tal como o vento enfrentando o fogo.
Alrium tentava
expulsar o adversário com ataques de centelha, soltando faíscas virando raios
de luz dourados, mas na couraça negra de Nircuth, estas simples técnicas não
faziam tanta diferença.
O chão estava
rachado e arranhado com a dança de armas.
No calor do
duelo, Alrium pôs a lança dourada em riste mirando o peito de Nircuth,
acertando-o, mas já estava desgastado e cansado, logo só conseguiu destruir o
peitoral da armadura do cavaleiro negro, não sendo suficiente para feri-lo,
nisso Nircuth segurou a lança antes que escapasse e investiu com o seu machado
no peito de Alrium, rompendo a liga poderosa de sua armadura prateada e fazendo
com que sangue escorresse na rachadura feita pelo ódio do Dragão negro. O
lanceiro, enfraquecido pelo inesperado ataque, sentiu o seu cristal de Centelha
se trincar, uma escuridão tomou sua alma, fazendo-o tombar com um joelho para
trás.
- É seu fim,
Alrium.
O lanceiro
ouviu um som semelhante ao do tilintar de vidro quebrado, porém, mais forte,
como se uma junção do quebrantar de rocha e vidro. Quando ele se deu conta,
toda sua armadura estava com finas rachaduras, como se prestes a desfalecer.
Sua lança caiu
inerte ao chão, a queda provocou um baque abafado e tônico.
Eárine soltou
um grito agudo o qual ecoou por todo o jardim. Assustada, ela cobriu a boca com
as mãos e se abaixou mais ainda ao perceber que Nircuth olhou para o lado,
suspeitando ter ouvido algo.
Alrium tentou
reagir de todas as maneiras, mas a dor era forte demais, não conseguia sequer
se levantar, fazia de tudo para reerguer-se, pois sabia que tudo dependia dele.
Àquela altura, se ele não derrotasse, ninguém mais em Morgen Turm derrotaria
Nircuth, e esse seria o fim de outro grande reino. De repente, ele não sentiu
mais nada, todo seu Animarum fez um último esforço para recobrar as forças.
Nircuth deu
outro berro espectral fazendo Eárine sentir sua aura cortada, em seguida retirou
a arma do corpo do Domador de mares derrotado, pintando o chão rochoso liso de
escarlate. Ele ergueu o corpo da presa abatida, deu dois passos para próximo do
batente, segurou Alrium pelo pescoço e o mesmo tentava lutar para se livrar das
frias garras do vilão, se contorcendo, tentando convocar qualquer poder natural
do mar, mas seu Animarum fora ferido profundamente. Um Cavaleiro que tinha seu
Cristal do poder trincado ou quebrado, não poderia mais lutar. Ele esticou o
braço com a mão aberta em vão para tentar alcançar sua lança inerte,
entretanto, já estava distante, e quando percebeu ser inútil aquele esforço, olhou
direto no brilho vermelho da viseira do capacete do inimigo, e lá dentro Alrium
viu apenas morte, destruição, chamas mortíferas, gritos de terror e tambores de
guerra.
O Portador da
Ordem esticou o braço, levando seu algoz para além do batente, precipitando-se
para a cachoeira. Alrium percebeu não haver mais saída, ainda assim segurava os
braços de Nircuth com força, tentando não cair...
Nircuth abriu
a mão. Alrium em sua mente pediu perdão aos seus irmãos Weisen e Barenkraft. A
última coisa que viu antes de desmaiar foi Eárine sentada com os olhos
arregalados e a boquiaberta, com os cabelos reluzindo em dourado, ele nunca
tinha visto tamanho esplendor antes.
A queda do
Herói transgrediu-se em um silêncio fúnebre, seu corpo sumiu em meio as azuis e
cristalinas águas da cachoeira. Sua pena de Fênix vermelha ficou no parapeito,
imóvel. A chuva cessou de repente.
Eárine
levantou-se bruscamente com os olhos encharcados de lágrimas e correu pelo
canto do pátio, Nircuth pensou ter visto algo violeta se movendo em meio às
flores altas, mas já estava longe demais, havia entrado pela porta escancarada
e desaparecido no corredor, em busca de Arthenia, sua mãe, em busca de qualquer
esperança contra um terror indomável.
Ao voltar-se
para o viveiro, Nircuth pisou na lança prateada, desfazendo-a em poeira
dourada.
As águas eram
frias e calmas, a limpidez de uma tranquila correnteza formava uma aquarela
vista mesmo de cima das mais altas árvores, uma transparência incomum assomava
todo o rio, havia um reflexo prateado naquelas águas, algo diferente das
escamas dos peixes notívagos; como um aquário perpassado por luzes pálidas
lunares, assim era o rio abaixo da cachoeira. Uma figura derrotada era levada
pelas águas da natureza, um dia assopradas pela baforada de Arktrhun a muito
tempo.
O estreito era
cercado por pequenas falésias rochosas esverdeadas, sobre a grama existiam
bastantes árvores se curvando contiguamente dos dois lados do rio, formando uma
espécie de túnel natural cheio de pétalas coloridas esvoaçando junto à flor da
correnteza. Quem visse esta maravilha de Tanifra, diria ter as estrelas um dia
tocado o mar, pois no córrego caiam flores, colorindo a pintura da correnteza.
A luz da lua de
vez em quando se destacava em pontos entre as folhas das árvores, formando fachos
concentrados brancos como espadas.
Sendo levado
por este flume, Alrium, ainda recobrando os sentidos, sentiu seu braço esbarrar
numa rocha, uma rasa falésia marcava o fim do córrego; o herói abatido teve a
consciência martelada por uma pancada nas pedras, era estafante e doloroso
tentar se mexer, mas ele conseguiu se segurar à beira pedregosa com a mão. Todo
seu torso coberto pela armadura completamente trincada igualmente ao vidro rachado,
doía, como se o corpo tivesse suportado semanas de luta sem fim. Com um esforço
colossal o Domador de Mares esticou o outro braço para outra pedra e subiu mais
um pouco, tirando a cintura da água.
Exausto, pôs
os dois braços para frente arrastando-se, esse esforço evocou novamente a dor
do ferimento no peito, estava quase sucumbindo. Entretanto, fazendo um esforço aspirante,
conseguiu colocar as pernas acima das rochas cinzentas e vez por outra
quebrantadas. Virou-se deitado para cima na superfície áspera e úmida, observando
o caminho das nuvens.
Alrium de
repente sentiu uma concentração de luz ao seu lado, virou a cabeça cansada e
viu um campo de flores com pétalas brancas, brilhantes, esplendorosas e fortes
como a luz do sol, ele vislumbrou a imensidão branca com detalhes verdes até
onde a vista alcançava, o brilho das flores era tamanho, que as árvores ao
redor se misturavam em tímidas sombras, sendo ofuscadas. Elas esvoaçavam
cordialmente, todas juntas borboleteando e lançando pétalas ao ar as quais pousavam
com cuidado, simulando trocas de pétalas.
Havia um
contraste perfeito entre o breu da noite e o brilho da planície.
O campo estava
a menos de um metro de distância, foi quando o lanceiro começou a se esgueirar
rumo ao centro das flores reluzentes, à medida que foi entrando no campo e
remexendo as plantas, foi se sentindo cada vez mais calmo, todo o peso da dor e
da luta deixavam vagarosamente o seu corpo, porém ainda sentia o cristal
rachado.
O Domador de
mares pressentiu seu Animarum se recompondo por continuar ali meditando, e foi
o que fez. Sentou-se com as pernas cruzadas e costas erguidas, de repente, sua
consciência voltou ao normal, estava conseguindo calcular o que aconteceu e o
que fará com mais facilidade: Imaginou Nircuth aproximando suas tropas pelo
córrego do rio da cachoeira em direção a Morgen Turm.
Calculou ter
até a alvorada para voltar à Morgen Turm, antes dos navios negros invadirem e
tomarem a cidade.
Alrium
lembrou-se da promessa feita para Eárine, e com esse pensamento pôs-se de pé
lentamente, como um soldado sentindo o verdadeiro peso da batalha sobre os
ombros, assim era o levantar do Domador de Mares. Ele escutava os pedaços
soltos de sua armadura danificada tilintando a cada movimento feito. De repente
um nome emblemático veio a sua mente...
Seishin...
O herói olhou
em volta contemplando a viagem das pétalas, foi ali que viu uma se aproximando
de seu elmo rachado, ele esticou o braço e a viu pousar com cuidado na palma da
mão, então cheirou-a de perto: o aroma foi algo sublime, refletia o doce cheiro
das mais belas flores, uma amálgama de essências juntas numa flor só. Seus
pulmões sentiram novamente a paciência e coordenação aprendidas com anos de
treino, não havia mais nervosismo.
Ele olhou para
o horizonte, atrás de si tinha o córrego do rio cristalino, e a sua frente
abria-se o limiar interminável de flores brancas, com montanhas enegrecidas
pela penumbra da noite ao longe.
Plantem suas raízes em minha força vital,
não deixem a escuridão
afugentar seu brilho,
mostrem a pureza deste
mundo a partir das cores
suas pétalas são vida,
são energia.
Assim Alrium
cantarolava a poesia enquanto andava lentamente com sua lança agora projetada,
tal qual um peregrino em busca da razão de tudo.
Luzes douradas
emanaram de dentro das frestas, arranhões e rachaduras em sua armadura, Alrium
olhou para os braços, estranhando a magia, mas rapidamente se deu conta do
efeito extraordinário do campo e com isso levantou a cabeça, abriu os braços e
pensou no sol, mais brilho reluziu nas águas do estreito rio.
A pétala em
sua mão já se havia voado, voltando para a valsa dos campos.
Segundos
depois abriu os olhos e percebeu seu Warlord intacto, não havia mais nenhum
arranhão em sua couraça de prata, o aço cintilava como as pétalas das flores.
Era como se um novo sol tivesse nascido na terra para saudar a distante lua,
Alrium estava de volta.
O milagre da
majestosa botânica de Trajectory.
Ele precisava
voltar rápido, mesmo não estando tão forte quanto costumava, a magia das
plantas não proferiu uma cura perfeita, mas um suspiro de força. As únicas
coisas dispostas a serem usadas para lutar eram sua armadura e a Lança. O
cavaleiro julgou isso o suficiente; a lua estava descendo, não restava mais
tempo para pensamentos de xadrez.
Agradeceu às
divinas estrelas pelo presente resplandecente, agora era hora de completar o
rito.
Alrium se voltou
para a mureta natural rochosa de onde veio e percebeu haver uma pequena encosta
de areia próximo às árvores, nas laterais do alongado rio. Olhou uma última vez
para as flores, foi quando notou ter perdido sua pena de fênix vermelha. Logo o
Domador de Mares lembrou-se de sua filha, e com a delicadeza da correnteza
enfincou uma flor numa fresta do seu capacete, ao lado da viseira. Subiu o
olhar depois de tanto tempo e vislumbrou a silhueta de Morgen Turm à distância,
as águas nesse ângulo criavam cristas vistas ao longe por conta da luz do luar,
já as torres e a varanda precipitadas à cachoeira eram silhuetas negras e
pontudas.
O lanceiro
renascido saiu do campo de Seishin e caminhou pelo túnel de árvores cobrindo o
rio, a lança apontada para a água, com a lâmina acariciando e cortando as águas,
a concentração de Animarum fazia a correnteza estremecer, ele tentava em vão
fazer qualquer movimento telepático com o rio, mas não conseguia, não estava
com o poder máximo.
Seu foco o
fazia ouvir os bateres de asas das borboletas.
De repente se
viu numa curvatura muito estreita, um caminho secreto entre rochas altas e
curvas, um bosque escondia este deslize, no outro lado da curva do rio haviam
muitas árvores altas e vitalícias, Alrium percebeu que sua viajem para os
campos de Seishin foi algo milagroso, e ao perceber ser aquilo uma trilha não
descoberta por ninguém até então, teve orgulho de Eárine. “Somente uma
aventureira tão confiante na natureza descobriria um caminho secreto na
ultrapassagem do rio” pensou ele. Logo passou direto, seguindo a trilha do
córrego rio, onde por mais alguns minutos de caminhada para o norte, estaria
próximo à cachoeira.
A cidade
protegida pelo imponente reino da Torre da manhã estava depois da passagem
secreta descoberta por Eárine, embora ela também tivesse uma ligação com o rio,
não estava longe, mas não era onde Alrium queria chegar, ninguém poderia
ajudá-lo agora.
Para dar a
volta na cachoeira e subir os quinhentos metros de queda teria de seguir pelas
montanhas pálidas ao leste e pegar uma trilha subindo, até chegar na ponte leste
de Morgen Turm, mas isso demoraria mais de um dia de caminhada, Alrium não
tinha mais do que 3 horas para tal, logo Nircuth destruiria tudo com suas
tropas.
Só havia um
meio de subir rápido o suficiente: Pelas pedras da cachoeira.
“Se é esse o
rito preparado pela luz para o Domador de Mares, então... Que assim seja.” Pensou ele.
Alrium pôs-se
a caminhar pela beirada do rio, passando por rochas claras reluzindo no reflexo
do flume. Logo se viu próximo a desembocadura da cachoeira, um enorme e azulado
lago tremeluzindo às quedas da cascata; o som das pancadas de água era algo
estonteante e poderoso diante de qualquer guerreiro. Olhou com mais cuidado e
avistou pedras enormes e pontudas bem próximas às quedas d’água, não despencou
nessas rochas por favor de Tanifra, ela havia preparado algo melhor para o herói.
Desmaterializou
a lança simplesmente soltando-a para o lado, se aproximou de uma pedra pontuda
servindo de trampolim, e saltou rio adentro. Mesmo com a armadura, o Domador de
Mares sentiu o frio congelante e aniquilador de covardes, ele nadava com a maestria
de um peixe em direção às pedras por onde as águas castigavam a terra, e
enquanto nadava observava com paciência a natureza submersa: era maravilhosa,
com lindas e esverdeadas algas, pequenos peixes reluzentes à luz do luar,
protuberâncias rochosas criando pequenas cavernas abrigando espécies e mais
espécies.
O lanceiro
continuou batendo braços até chegar próximo às escuras pedras postadas atrás da
vasta queda d’água, estava do outro lado da cachoeira, e em sua frente
configurava-se uma pequena caverna refletindo fachos de aquarela nas
estalactites. Ele estava de fronte à um paredão de rochas enegrecidas pela escuridão
provocada pelas águas. A dispersão da descida das águas causava nuances de luzes
nas pedras, como se uma dança caótica acontecesse toda noite por trás da
cachoeira.
Determinado
a fazer o que fosse necessário para chegar lá em cima, Alrium aproximou-se da
falésia e começou a escalar as rochas da cachoeira, fazendo um esforço colossal
e heroico. Sua armadura reluzia as constantes trocas de nuances azulados refletidos,
ele estava coberto pelo movimento da água. A subida era tensa e perigosa, as
pedras pareciam úmidas e soltas, algumas o fizeram pensar duas vezes antes de
se segurar, mas nada parecia o impedir de subir interminavelmente; o esforço
mastodôntico fazia sua armadura prateada receber um peso o qual nunca havia
sentido antes.
Respirando
lentamente, olhou para cima por alguns instantes, testemunhando o tortuoso
desafio acima: em alguns pontos das protuberâncias rochosas as águas davam
pancadas enormes, não havia como se desviar.
Ciente
do perigo, o Domador de Mares continuou sua escalada o mais breve possível.
Cada
braçada para cima era um titânico peso alastrado, subia lentamente a falésia,
vez por outra olhando para baixo, mas sempre se decepcionando com a pouca
altura alcançada com tanto esforço. Minutos pareciam horas. Mesmo tão próximo
da água, Alrium viu que a coloração do céu estava ficando alaranjada na beira
do horizonte: havia muito pouco tempo.
Ele
então virou o rosto repentinamente, dando um brado de guerra triunfante ecoando
pela cascata afora, e continuou a subida, foi quando notou ter alcançado a primeira
pancada de água nas pedras. Parou por uns instantes calculando quais as
melhores opções de pedras, entretanto estava difícil demais de se ver, o breu escondendo
o muro confundia e enganava. Esticou um braço para cima e materializou sua
lança, tateando com a ponta as pedras, eis que algumas despencaram e Alrium foi
forçado a saltar para o lado, evitando as rochas caídas. Sumiu a lança
novamente e chegou na parte da primeira pancada de água, pôs o braço para
sentir a pressão da água e se assustou com o seu poder, mas não podia desistir
a essa altura, deu um salto para cima nas pedras e foi recebido tal qual um
navio é recebido por uma tempestade.
Alrium
sentiu cada gota da cachoeira naquele momento, ele era a cascata e a cascata
era ele. Mas entre o lobo e o homem, alguém precisa reinar.
Sob
a constante e tortuosa descida de água nos ombros e na cabeça, os quais agora
pesavam como montanhas, Alrium usava toda sua força para se manter firme, e seu
corpo revestido por prata tentava expulsar a forte chuva da cascata, explosões
gigantescas de água eclodiam na velocidade do bater de asas de uma borboleta.
De repente ele notou a perna esquerda vacilar e ficar dependurada: O seu peso
unido aos golpes da cachoeira fez uma das pedras ceder. Buscando a força dos
ursos com os braços, Alrium tentava avançar de todas as maneiras. O herói esticou
seu braço para cima como uma lâmina em direção à água, cortando logo os véus, e
segurando-se numa pedra, e com isso suportou o peso e avançou. De repente ele se
percebeu fora da tempestade das águas.
Não
havia mais tempo para comemorar o momentâneo alívio.
Seus
membros tremiam, a água se transfigurou na prata da armadura, como se uma nova
coloração assomasse sua verdadeira forma.
Alrium
continuou a subida com unhas e dentes, a densa luz alaranjada à borda do
horizonte se fortificava, o amanhecer estava próximo, não havia muito tempo.
A altura
alcançada por ele silenciava a queda de pedras soltas.
O cavaleiro já
estava a uma altura considerável, estava se aproximando da nascente da
cachoeira, na última pancada d’água. Minutos de escalada incansável se passaram
e Alrium alcançou a última colisão de água, haviam pedras pontudas
sobressaltadas formando um precipício acima; arriscou dar uma última olhada
para baixo: O milagre de sua sobrevivência não se repetiria, não a essa altura.
Pôs-se a aproximar das firmes pedras agora já clareadas pelo caminhar da noite
cedendo lugar ao dia, logo se dependurou numa pedra próxima ao contato com a
água, sentiu que esse sim era o verdadeiro poder do mar, e com a força dos
ursos, escalou as pedras por dentro das colossais pancadas. Essa queda era
diferente da anterior, como se tomada por muito mais voracidade, era como se o
mar despejasse todas as suas vias ali, deixando o resto da queda ser somente um
resultado disperso desse impacto.
A dor no peito
de Alrium voltou de repente, sentiu-se vacilar numa pedra e novamente ficar
dependurado, entretanto por um braço só. Perdendo as esperanças de
sobrevivência, ele procurou lembrar-se da virtude que aprendera no mais
ancestral treinamento de Animarum: A coragem. Encarou a luz cortada das
estrelas e deu um brado de guerra, conseguindo assim se segurar novamente; como
um lobo do mar, era invencível o esforço que fazia, os triunfantes salpicos de
água em seu corpo eram como infinitos tambores pedindo sua desistência.
Inspirou fundo
e deu um último salto de fé. Quando suspirou, se viu livre da tormenta.
Um alívio
cordial assomou-lhe os braços, tudo acima de sua cabeça agora era uma parede clara,
polida e abobadada de pedra, e mais acima, o batente tão desejado de ser
alcançado. Foi como se Alrium tivesse vencido a tormenta e atravessado as
nuvens.
Pôs-se de pé
em um aglomerado de pedras logo acima da cachoeira, a cascata havia ficado para
trás. Olhou para o horizonte contemplando com orgulho a alvorada dourada.
Baixou a visão e percebeu estar numa plataforma natural feita para a observação
da cachoeira, era como um trampolim rochoso abaixo da varanda do castelo. A
altura era tamanha, que pequenas e finas nuvens cobriam partes da descida.
Voltou-se,
avistando assim uma escada improvisada de madeira presa na subida da abóboda,
um presente divino.
Após subir a
escada, pulou sobre a mureta, dando de frente com o maravilhoso jardim o qual
sentiu tanta falta nas últimas horas. De repente, as sombras trêmulas das
flores mudaram de posição, uma nova pintura estava se formando, o sol já nascia
na borda do horizonte, e com ele, a esperança de Alrium.
Principiou a
procurar Eárine mas desesperou-se quando notou sua ausência, buscou por trás de
todos os viveiros, nada achou. E quando se aproximou novamente do batente,
encontrou finalmente sua pena de fênix vermelha. Colocou-a do lado do elmo,
próximo à flor colhida no campo e voltou-se para o corredor principal, rumo à
porta de madeira agora quebrada em pedaços. Ao entrar, algo no corredor lhe
jogou na tentação do ódio: Pequenos estilhaços pisoteados de madeira bem
trabalhada no chão com uma pétala outrora branca, mas agora apagada, cinzenta, corrompida.
“A luz não
pode se apagar...” pensou ele, lançando-se corredor adentro.
“Esta vã luz
está vos enganando com flâmulas de esperança, tentando esconder do que este
mundo realmente é feito, vocês se dizem imbatíveis, com sua penosa ‘luz’, mas
não passam de escravos do passado! Querem descobrir a verdadeira Justiça por
trás da real luta de nossos ancestrais? Pois então ajoelhem-se perante o Portador
da Ordem.”
Alrium pôde ouvir
estas palavras enquanto saia do corredor rochoso e se aproximava de um grande
pátio, com corredores nas laterais e pilares os segurando. O pátio era coberto
por grama e em seu centro havia um pedestal pedregoso agora coberto pela sombra
da imponente torre central.
Aquele
terreiro não possuía teto, o céu coloria o ambiente com um véu azulado poderoso
preparando a chegada do sol. Alrium reconheceu a voz umbrosa e espectral, era
Nircuth. O lanceiro se recostou atrás de uma pilastra, evitando ser visto.
Atrás de si haviam vários Cavaleiros de Orion, suas armaduras tinham espinhos e
eram tenebrosas de se encarar, ao redor de todos eles existia uma aura
malévola, como se tinta negra dançasse ao redor deles e escondesse seus rostos
nos elmos. Alrium pôs a cabeça um pouco para fora da pilastra e viu, através
das folhas de uma árvore seca, Nircuth de pé num patamar um pouco acima de onde
os outros cavaleiros estavam, de frente para o portão da torre.
Alrium virou-se
por trás do pilar e viu pessoas ajoelhadas, alguns aldeões, outros guerreiros
derrotados e feridos, havia uma pequena aglomeração no pátio, observando
Nircuth com terror.
O Domador de
Mares contou 7 Cavaleiros de Orion.
O herói
materializou a lança e sentindo o vento vibrar na faixa trêmula, afastou-se da
pilastra. De repente, um dos Orion Knights se virou bruscamente ouvindo os
passos firmes de Alrium, e ao ver a brilhante figura, deu um brado que perfurava
a alma dos mais fracos. O herói encarou as terríveis figuras e focou sua mente,
rapidamente pôs a lança em riste, fazendo então uma corrida voraz em direção
aos oponentes, os quais já haviam se dado conta de sua presença e sacado as
espadas.
E assim
começou um impactante combate de muitos contra um: os Cavaleiros de Orion com
suas espadas desferiam ataques desesperados contra o Santo guerreiro, mas eis
que sua lança era sempre a mais rápida, conseguindo por isso rebater três
ataques de espada com somente um arco no giro da arma, e aproveitando este
movimento, concentrou em sua outra mão uma aura dourada, cuja explosão mandou
os três oponentes para os ares em direção aos pilares. O herói sentiu seus
poderes voltarem e com isso bradou: LUTEM, MEUS IRMÃOS!
Os guerreiros rendidos
levantaram-se juntos como se num salto só, sacaram suas espadas, martelos,
lanças, materializando brevemente suas armaduras prateadas e partiram para o
combate contra os outros quatro cavaleiros negros. Alrium sentiu orgulho de
seus homens, Nircuth por segundos observou com paciência aquele que retornou da
morte, projetando à sua mão o tão temido machado da destruição. De repente, no
calor do combate e do tilintar de espadas ao redor do pátio, um corredor se
abriu entre Alrium e Nircuth.
- Tu achas
mesmo que há escapatória para teu reino, domador de Mares? – Vociferou o
Portador da ordem.
Alrium ignorou
a voz do inimigo e pôs-se a correr sobre a grama diretamente ao mesmo. Antes de
chegar na elevação do pátio, deu um salto com a lança apontada para baixo,
Nircuth esperava o ataque com seriedade, embora por dentro estivesse surpreso
com a milagrosa volta do lanceiro.
O ataque de Alrium
cortou parte do chão de pedra, faiscando partículas douradas da lança. Mas o
Portador da Ordem havia desviado com um rolamento habilidoso, e eles voltaram a
se encarar novamente, sem medo. Os dois se estudavam e andavam lentamente como
se traçando uma circunferência, marcando o início da dança de armas.
- Onde está
Eárine e Arthenia? – Indagou o Domador de mares, breve mas ainda sereno.
-
Testemunhando a sua queda. – Devolveu Nircuth.
Fachos de luz
vermelha se projetaram acima do cavaleiro negro impulsionando-o a um ataque de
machado da esquerda para a direita, o qual Alrium desviou tentando então um
contra-ataque certeiro, mas Nircuth antecedeu o movimento e rebateu a lâmina
pontuda em sua parte achatada com o bracelete negro. Esses ataques os aproximaram
mais ainda, Alrium tentou desferir um soco carregado de aura dourada no
capacete de Nircuth, entretanto o golpe foi segurado pela fria mão do Portador
da Ordem, fazendo explodir faíscas vermelhas e brancas.
Nircuth soltou
rapidamente o punho de Alrium e com a velocidade de um tigre, deu uma pancada
no pescoço do mesmo, segurando-o. O cavaleiro prateado tentou se desvencilhar,
mas quando parou para perceber, seus pés haviam perdido contato com o chão.
Nircuth estava voando em direção à torre enquanto o estrangulava, logo um
embate de cores se fez próximo às paredes curvas da torre, Alrium com o braço
livre da lança socava a cabeça de seu captor, fazendo o mesmo se desequilibrar
e parar nas paredes rochosa, e assim eles foram subindo, tentando liberar as
armas, se esmurrando, rolando na parede da torre, jogando pedras e tijolos
maciços para longe. Poeira aos montes assomava os ares.
De repente,
entre socos e empurrões fortíssimos, Alrium olhou para trás e percebeu ter
chegado na varanda de chão polido da torre pontuda. Nircuth desceu com força
para o chão da torre e os dois guerreiros sofreram um terrível impacto. A queda
fez eles se soltarem e se espatifarem, rolando para diferentes posições.
O chão antes
límpido e reluzente agora estava rachado como vidro, criando linhas brilhosas
pequenas entre as rachaduras: O sol havia chegado.
Alrium tentava
reunir mais forças para se levantar novamente e continuar a luta, e enquanto se
levantava lentamente, ouvia a voz odiosa de seu rival:
- Você não
pode ter... Voltado... Nenhum homem seria capaz de chegar aqui tão rápido... –
Fez um grunhido umbroso, indicando uma pausa - Mas agora é tarde, irmão...
O lanceiro
pôs-se com um joelho para trás, olhando para o belíssimo nascer do sol de Arktrhain,
sentiu a poeira no ar perturbado, como se todo o calor de batalha respirasse
fundo, aguardando o movimento voltar.
- Meu irmão já
se foi há muito tempo. – Disse ele.
- E o que é
você diante do retorno dos dragões negros? – Indagou Nircuth, de pé.
Outra pausa, o
ar vibrou mais forte, o sol de repente parou de subir, os sons de batalha para
a retomada da cidade haviam cessado na mente dos dois guerreiros, tudo a se
ouvir era o bater de asas de borboletas distantes.
- Eu sou o
Mar.
Alrium
levantou-se finalmente e correu em direção a Nircuth, cuja viseira escarlate
brilhou mais forte em sinal de surpresa. O Portador da Ordem apenas esperou o
último avanço, encarando-o. O Domador de Mares fez seus braços deixarem rastros
dourados faiscantes devido a tamanha velocidade usada para tirar o machado do
inimigo do caminho com a lança, reluzindo lindamente no espelhado assoalho.
Nircuth não conseguiu prever tanta agilidade e acabou abrindo uma brecha para
Alrium, o qual se aproximou num passo veloz tal como a correnteza do mar enquanto
soltava a arma, fazendo uma luz emanar de seu bracelete, e com este último
esforço, socou a face gélida do elmo de Nircuth com toda a sua força.
Um
clarão eclodiu na torre, toda a cidadela que agora lutava para expulsar os
cavaleiros de Orion testemunhou a luz.
Quando
a luz se dissipou lentamente, Nircuth se viu com o maxilar de seu elmo
destruído. Ele vacilou para trás e deu outro brado espectral ensurdecedor, tendo
um pedaço solto e pendurado de metal revelando por trás de seu capacete uma
fumaça negra e bruxuleante, sem forma.
O
punho prateado do Lanceiro estava rachado e com uma mancha negra.
Um
líquido negro escorreu de onde deveria ser a boca de Nircuth, ele tropeçou para
trás, e quando estava prestes a cair do precipício aberto pela destruição da
batalha na varanda, transfigurou-se em uma densa massa de gás enegrecida,
partindo assim para o horizonte, para o covil dos outros dois cavaleiros
ancestrais de Orion, os quais deram origem a esta luta infinita.
Esse
não será nosso último confronto. – Disse, a fumaça de Nircuth, se esvaindo aos
poucos.
Mas
ainda não havia acabado, Alrium foi até o parapeito destruído da torre e viu
navios negros no rio atrás da cidade, todos tentando atracar na cidade.
Todavia, percebeu que sem Nircuth, os soldados de Orion não teriam força para
invadir o castelo, mesmo em maior número.
Ele preparou
um raio imenso com sua lança, a qual vibrou e brilhou, como se recebendo forças
do sol, fez um movimento perfurando o vento e lançou um longo relâmpago dourado
em direção a um dos navios. O navio estremeceu e os tripulantes armados
sentiram o casco ter sido rachado, mas quando tentaram reagir já era tarde: O
navio havia sido completamente derrotado e já estava afundando rapidamente.
De
repente o seu cristal de Animarum pulsou mais rápido. Ele sentiu uma dor
pungente no peito novamente, este último combate o danificou muito, não
conseguiria destruir mais navios usando deste mesmo poder.
Sob
o alçapão do andar de onde estava, Alrium descia freneticamente as escadas em
espiral da torre, passando pelos buracos feitos pelas pancadas de Nircuth
minutos atrás. Os sons de batalha lá fora se faziam presentes, os guardas da
cidadela pareciam estar vencendo, mas Alrium não conseguia desviar seu foco
para outra coisa senão as possibilidades do que aconteceu com sua querida filha
e sua esposa Arthenia nessas últimas horas de lua.
Chegando
no terraço, mais uma vez no pátio, percebeu ter a batalha ido para longe, os
Orion Knights nesta área já tinham sido abatidos. Quatro cavaleiros prateados
se encontravam juntos defendendo a torre de qualquer chegada inesperada, mas
quando viram Alrium saindo pelo portão de madeira, abaixaram as armas.
-
Senhor, a situação está crítica, precisamos de reforços, o que faremos agora? –
Indagou um dos soldados com ar de preocupação.
-
Não há tempo para reforços, Iniciados, Nircuth já partiu para as profundezas
distantes do horizonte enegrecido, precisamos avançar, repelindo o inimigo e
alcançando o porto. – A voz de Alrium, o líder nato, ecoava pelos corações e
mentes de qualquer guerreiro o qual havia perdido seu fio de esperança.
-
Vamos pela alameda principal! – Sugeriu um dos homens, apontando para um véu de
fumaça formada do outro lado da cidadela.
Alrium
tomou a dianteira.
Com
a ponta da lança dourada reluzindo, ele correu junto com seus soldados entre
pequenos prédios rochosos pela rua principal da cidade, algumas árvores
soltavam suas folhas por cima da estrada, e estas eram levadas pela velocidade
da marcha dos heróis. Mais à frente, na direção do córrego do rio, podiam-se
ver os mastros altos dos navios de Orion, eles estavam avançando fortemente. O
Domador de Mares procurava conter o desespero de não ter encontrado sua filha
todo este tempo.
De
repente, eles cruzaram uma esquina na estrada de pedra e se viram diante de um
combate que parecia já estar acontecendo a tempos, mais cavaleiros da luz
contra mais Orion Knights, a luta agora era para atravessar esta estrada e
chegar a plataforma, mas o tilintar constante e reluzente de espadas tornava
essa ultrapassagem um perigo. Antes de investir, Alrium perguntou a um soldado
próximo: - Iniciado de espadas! Onde estão Eárine e Arthenia?
-
Nós vimos a curandeira de flores e vossa esposa sendo levada por essas
criaturas nessa estrada já faz um tempo, senhor! – Respondeu o soldado aos
berros, no meio da balbúrdia de combate.
Alrium
virou-se para o lado do combate da alameda, fez um comando com a mão para mais
2 homens se unirem a ele numa formação, e assim os três partiram em ponta de
seta para cima dos inimigos. O impacto foi triunfante, o vento perturbou-se com
o combate e a fuligem provocada pelo fogo dos navios de Orion esvoaçou para
mais perto, deixando o cenário com faíscas vermelhas se misturando às faíscas
do contato de espadas. Vencendo as minúsculas folhas de fuligem e poeira, o
Lanceiro fazia fintas perfeitas com sua lança e perfurava os inimigos com
golpes breves, em arco, em estocada, ora em riste, ora em golpe descendente, e
assim o grupo de soldados foi avançando pela estrada agora coberta por um
líquido umbroso e negro no chão. O destaque de Alrium na batalha trazia orgulho
aos guerreiros naquele tempo.
-
O DOMADOR DE MARES RETORNOU! – Bradaram os homens em coro, motivados pela moral
do líder.
Tendo
os inimigos restantes fugido correndo da batalha, Alrium e seus soldados
conseguiram alcançar o cais, pontes de madeira estavam cobertas por cordas e
utensílios de pesca, algumas delas pegavam fogo à distância.
No calor da
batalha, O lanceiro prateado viu na borda de uma ponte flamejante uma
aglomeração encarniçada de Orion Knights lutando contra um único guerreiro.
Quando apressou o passo ele viu se tratar de sua amada esposa, Arthenia, a qual
lutava incessantemente contra hordas de cavaleiros negros, repelindo-os com sua
longa espada veloz como o vento da primavera, ela era graciosa e precisa nos
movimentos.
Alrium destacou-se da formação de seus homens
e acertou os inimigos de surpresa, abrindo então um vão no círculo formado para
cercar Arthenia; ela se assustou com o retorno inesperado de seu tão amado
marido, e com esse impulso os dois derrubaram mais cavaleiros negros.
-Meu amor,
como venceste a morte? – Indagou Arthenia, enquanto os soldados trazidos por
Alrium expulsavam o resto dos oponentes.
- Por favor de
Tanifra... Minha amada, onde está Eárine? – Disse Alrium, em meio às faíscas do
fogo consumindo a ponte.
- Ela foi
separada de min por esses soldados, Alrium, perdi muito tempo nesta luta... –
Fez uma pausa, olhando para o rio. – Mas veja!
Alrium virou-se rapidamente e viu Eárine na
borda de um dos navios negros partindo, ela gritava por socorro, e no momento
que fez isso foi puxada por braços maldosos para fora da vista de seu pai.
Arthenia e os
cavaleiros iniciados recuaram da ponte a qual ameaçava ceder com o fogo que lhe
consumia, Alrium notou ser essa sua última chance.
O Domador de
mares avançou sozinho em meio às chamas para a borda da ponte.
Com
esse impulso, Alrium sentiu novamente seus poderes dos mares voltarem, então
arriscou um salto de fé, impressionando todos a sua volta. Ele correu vorazmente
até a ponta do cais e pulou uma distância inacreditável, pondo a lança apontada
para frente e o braço para trás, um salto movido pela força do Animarum exigia
técnicas antigas, a ponte atrás de si já não mais existia. Mas, percebendo que
nunca alcançaria seus inimigos a tempo, desceu a lança no meio do ar em direção
ao rio e repentinamente uma onda subiu abaixo de seus pés, levando-o como se
ele surfasse com a graça de uma garça; quando se aproximou mais do navio, bateu
com a parte chata da lança na água e deu outro pulo ainda maior, descendo
diretamente no centro do navio.
Os
cavaleiros de Orion se assustaram com a chegada inesperada do herói, e era
somente dessa impressão que ele precisava: Ele emanou forças ao redor da armadura
e assim começou a golpear os inimigos, os quais ainda materializavam as armas
nas mãos. Fazendo arcos com a lança, ele arremessava os oponentes ao mar,
jogava-os contra o mastro, empurrava-os contra o chão, sua maestria com a lança
não deixava sequer uma brecha, mesmo contra inúmeros algozes, ninguém poderia
parar o Domador de Mares, não quando sua filha estava em perigo.
Enquanto
deparava golpes de espada, o Lanceiro da Aurora apertou o punho esquerdo e
abriu-o novamente soltando um clarão poderosíssimo, empurrando todos os adversários
para trás, como se uma parede os socasse. Rapidamente virou-se e desceu por uma
pequena escada para alcançar o convés, de repente se viu diante de uma porta de
madeira negra, a qual explodiu num chute feroz e viu Eárine atrás de uma
pequena mesa, tentando se proteger dos seus captores, de olhos fechados.
-
Eárine, minha querida, não se preocupe, estaremos bem em pouco tempo... – Disse
ele agarrando a filha com um braço e logo limpando o seu rosto sujo de fuligem
e poeira, seus cabelos reluziam prateado.
Ela
abriu os olhos com resplandecente surpresa.
-
Papai! Como fez para voltar?
-
Conto-lhe mais tarde, curandeira de flores.
O
lobo do mar saiu do convés com a criança em seu braço e de repente percebeu
estar cercado por um número considerável de Orion Knights, todos berrando seus
sons perfurantes, com armas tenebrosas em punho. Alrium olhou para cima,
mirando o mastro do navio, abaixou-se e proferiu com a mão encostada no chão um
pequeno redemoinho debaixo do navio, mais inimigos chegando estremeceram e
tropeçaram com o balanço, aproveitando isso Alrium viu uma brecha entre eles e
correu para a popa do navio, dando assim outro salto e mais uma vez sendo
levado pelas correntezas da água para o embarcadouro. Ele sentiu o impacto da
madeira nos pés, colocando Eárine no chão com bastante cuidado, atenuando seus
cabelos que agora refletiam a cor trêmula do mar.
O
navio de Orion parecia bater em retirada, devido ao plano arruinado.
-
É sua chance, Líder! Faça-os pagarem pelo que fizeram! – Bradou um dos
soldados.
Alrium
olhou para o navio partindo em retirada, levantou o braço em direção ao mesmo,
pensou um pouco... E abaixou o braço.
-
Não deixe que fujam, lanceiro!
-
Não é destruindo por completo o inimigo que teremos nossa vitória, Iniciados.
-
Mas eles irão voltar... – Murmurou outro dos guerreiros.
-
Eles, assim como nós, terão uma história para contar, quem sabe um dia, com
atos de misericórdia, a guerra acabe. – A voz de Alrium soou como as lindas e
atenuantes flautas da noite, havia serenidade e orgulho naquele Líder.
-
Deixem que a virtude reine desta vez. – Interviu Arthenia, desfazendo sua
armadura no embainhar da espada.
-
Mas como senhor conseguiu voltar a tempo? A queda é teoricamente fatal a qualquer
um que pereça! – Perguntou um dos cavaleiros, curioso.
Alrium
olhou para Eárine, logo ele se lembrou da pétala que pegaram nos campos de
Seishin horas atrás. Vagarosamente pôs a mão no capacete, tirou a pétala de
onde estava presa, e se abaixou.
Sua
armadura se desfez em partículas minúsculas de Animarum, a poeira reluzente
viajou para o sul, como borboletas num campo de flores.
-
A deusa Tanifra guarda outros destinos para min. – Disse ele finalmente.
-
Não entendo, o senhor ainda não disse como conseguiu chegar aqui, papai! – Apontou
Eárine, confusa.
-
Com isto. – Ele entregou a pétala branca brilhante na mão da menina. – Lá
embaixo eu visitei o campo descoberto por você, e estou orgulhoso por ter uma
exploradora tão experta em nosso reino!
-
Que belo! – O sorriso retornou ao rosto da criança.
-
Sei um nome novo para a essas flores: Seishin
no Jundo. Pureza de Espírito. – Fez uma pausa, acariciando o puro cabelo da
criança. – Guarde esta lembrança.
O sol pintou o
rio de dourado.
E assim Alrium
contou numa noite de celebração de vitória a sua história, o seu retorno à
Morgen Turm. Lá ele ficou por curto tempo, até que partiu novamente para mais
odisseias e aventuras, ajudando seus irmãos Weisen e Barenkraft nas mais
difíceis batalhas. O povo da Torre da manhã fez voluntariamente uma estátua
gigante homenageando o Domador de Mares em frente ao jardim, precipitando-se
para a cachoeira, com a lança em riste para baixo, e isso foi uma surpresa
fortuita para ele mais tarde.
Os heróis têm seu tempo de descanso por agora,
mas mal sabem eles, que esta batalha havia acabado de começar.
não deixem a escuridão afugentar seu brilho,
mostrem a pureza deste mundo a partir das cores
suas pétalas são vida,
são energia.


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